sábado, agosto 18, 2007

Sem Destino



Foi como uma bomba implantada no meu cérebro que o filme explodiu. Sabem que, depois de ter lido o livro, ver inadvertidamente todas as imagens que projectámos um dia na cabeça reproduzidas em imagens verdadeiras, com rostos, corpos, cores. Não se trata de uma comparação livro/filme, porque advogo que as duas coisas são dois objectos artísticos diferentes e como tal não devem ser comparados no sentido qualidade relativa.

O livro chegou-me às mãos no ano de 2002, ano em que o autor Imre Kertesz ganhou o Nobel da Literatura. Na altura, ouvi e pensei barbaridades do género - prémio condescendente porque é dado a um tema óbvio e já mais do que debatido. Engano meu, pois a II Guerra Mundial (como todas as guerras) são temas que envolvem tantas histórias e tantas vertentes e tantos países.

Li o livro (Sem Destino)e fiquei abismado. É um livro simples e no entanto de tão díficil compreensão. Contudo, ao lermos com atenção e ao chegar à última palavra algo se ilumina dentro de nós, uma luz distante, difusa e triste. Mas bela.

O livro é semi-autobiográfico e conta a história de Koves (ou o próprio Kertesz), um rapaz de 16 anos que vê o pai partir para um campo de concentração e que mais tarde vai ele próprio para um.



Escrtito sem nenhum sentimentalismo (um dos seus trunfos), parece chocante no que parece uma tentativa de amenizar o holocausto. Mas isso está longe de acontecer. Sem dramatizar, Kertesz escreve o dilema do rapaz entre manter-se vivo mas sem perder o amor próprio. A experiência bárbara não é minimizada, mas também não é demonizada.

A grande violência do livro é a descrição do quotidiano a que estão sujeitos os prisioneiros. Aí, nesse mesmo quotidiano terrível, Koves e os seus companheiros aprendem a descobrir uma espécie de felicidade, sendo no apoio mútuo e nesses pequenos momentos em que o sol se põe, na contemplação destes infimos nadas que ganham força para enfrentar um novo dia bárbaro.

A mensagem è simples, mas dura. Koves é judeu e como judeu ensinam-lhe que deve aceitar o que o destino lhe trouxer, pois o povo judeu está condenado a sofrer, o que Koves faz, de certa forma. Depois da passagem pelo campo de concentração, Koves aprende uma lição que lhe muda a vida - não existe destino, porque se houvesse não existiria liberdade e é passo a passo que se constrói a vida, convivendo com o mal, aceitando a sua possibilidade estoicamente, percebendo que o que é comum e normal neste mundo não é o Bem, mas a maldade. Contudo, como Koves diz no fim, aí reside a esperança e o valor humano - na felicidade que encontrou nos campos de concentração.

O filme, objecto magnífico, tem a felicidade de ser servido não só pelo argumento do próprio Kertesz, mas também pela excelente fotografia e banda sonora (que é do Morricone).



A ler e a ver.



Aconselho a leitura desta crítica:
http://www.ft.com/cms/s/a955ba50-cefa-11da-925d-0000779e2340.html/

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domingo, agosto 12, 2007

Sylvia Plath




Ontem vi o filme "Sylvia".
Plath é uma das minhas poetas(destesto a palavra poetisa)favorita.
os apelos suicidas de uma mulher sem saida, cuja imagem foi vergõnhosamente mais tarde apropriada pelas feministas como estandarte negativo. Exemplo negativo da mulher não realizada por causa dos deveres da casa, dos filhos, do casamento...
Mau exemplo. O problema não são os filhos, a casa, o casamento. Somos nós, homens.
A julgar pela forma como o filme o retrata, Ted Hughes não era mais do que um filho-da-puta mulherengo, infinitamente inferior a sua mulher, quer na capacidade como ser humano, quer como poeta.
Mas embora o retrato possa ser inteiramente ficcional, o exemplo está lá.
Não sei o que nos atinge, a nós, homens, para nos fartarmos tão depressa de um estado, de um sabor.

Aflita e desesperada, Sylvia vê a sua vida reduzida à triade que encontramos no poema "3 mulheres" - mãe, esposa, secretária. Cortaram-lhe as asas para voos maiores, como a muitas mulheres, ao longo da história e a ainda hoje.
Sem querer usar Plath como um exemplo, limitando-a assim a essa figura icónica, mas antes contemplando-a como ser humano, como mulher sensivel e no final de contas tão simples, aqui vos deixo o último dos seus poemas, tão prenunciador do suícidio que iria cometer.

"Edge"

The woman is perfected.
Her dead
Body wears the smile of accomplishment,
The illusion of a Greek necessity
Flows in the scrolls of her toga,
Her bare
Feet seem to be saying:
We have come so far, it is over.
Each dead child coiled, a white serpent,
One at each little
Pitcher of milk, now empty.
She has folded
Them back into her body as petals
Of a rose close when the garden
Stiffens and odors bleed
From the sweet, deep throats of the night flower.
The moon has nothing to be sad about,
Staring from her hood of bone.
She is used to this sort of thing.
Her blacks crackle and drag.

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segunda-feira, agosto 28, 2006

A Barreira Invisivel (The Thin Red Line)




Não resisti.
Para quem me conhece, sabe que eu spu um rapaz dado ás divagaçoes sobre o sentido da vida e sobre o que a espécie humana anda por aqui a fazer...

Ontem revi o filme A Barreira Invisivel, de Terrence Malick. Bem que o meu prof. de Literatura Norte-Americana (Joseph Mullin) me disse que este era um, senão o melhor realizador norte-americano contemporaneo, embora eu seja pouco dado a elogios balofos, sou obrigado a concordar.

Só largos minutos após o filme ter terminado é que as lágrimas me vieram aos olhos, de tão abananado que estava.

Os meus olhos seguiam atentamente cada plano, cada imagem da divina natureza, invadida pelo veneno da guerra. Os meus ouvidos e o meu coração (chamo coração ao sentido de pungência, ao inominável aperto de alma) registavam com profunda atenção os pensamentos mais intimos desses soldados tão humanos como nós.
A inevitável pergunta frente a tudo aquilo que nunca conseguiremos atingir: de onde surge toda esta beleza e ao mesmo tempo todo este mal?

Private Witt: This great evil. Where does it come from? How'd it steal into the world? What seed, what root did it grow from? Who's doin' this? Who's killin' us? Robbing us of life and light. Mockin' us with the sight of what we might've known. Does our ruin benefit the earth? Does it help the grass to grow, the sun to shine? Is this darkness in you, too? Have you passed to this night?

O que é esta barreira que nos impede de tocar o divino. Assistimos à beleza do mundo, a natureza, as relações humanas. E assistimos ao nojo.
Quem é este ser que nos porpocionou tanta beleza, mas que também nos permite que ela nos escorregue por entre os dedos?

Private Witt: We were a family. How'd it break up and come apart, so that now we're turned against each other? Each standing in the other's light. How'd we lose that good that was given us? Let it slip away. Scattered it, careless. What's keepin' us from reaching out, touching the glory?

Podemos sentir a glória, podemos vislumbrar o seu aspecto, as linhas da sua face.

O que nos leva a acreditar que estamos certos, que nos faz usar a mesma máscara, sempre. Agimos e pensamos que estamos certos, cientes do nosso motivo. E se fossemos confrontados com os pensamentos intimos de outro ser, tão como nós, como Witt o é ao "ler" os pensamentos do soldado japonês morto.

Japanese Soldier: Are you righteous? Kind? Does your confidence lie in this? Are you loved by all? Know that I was, too. Do you imagine your suffering will be any less because you loved goodness and truth?

Sensibilidade. Dor. Amor.
Tudo isto reside nos homens, em todos, sem excepção.

Amor?
Pvt. Jack Bell: Love. Where does it come from? Who lit this flame in us? No war can put it out, conquer it. I was a prisoner. You set me free.

Jack Bell descobre o verdeiro amor pela sua mulher. Ele diz : "Desde que aqui estou ainda não toquei numa mulher... "
Este "ainda" é denuncador de um comportamento anterior. Portanto opera-se uma mudança dentro do coração de Bell. Confrontado com a guerra, é a memória da mulher que o mantém forte.

Private Jack Bell: Why should I be afraid to die? I belong to you. If I go first, I'll wait for you there, on the other side of the dark waters. Be with me now.

Este amor, que subsiste à guerra, que subsiste aos nossos corações envenenados.

Private Jack Bell: My dear wife, you get something twisted out of your insides by all this blood, filth, and noise. I want to stay changeless for you. I want to come back to you the man I was before.

Também eu descobri esse amor.
Como Jack Bell, também estive longe do meu amor durante muito tempo.
A distância, a solidão, o meu coração também envenenado com a guerra da minha vida... Inseguro, fiz asneiras, o amor quebrou um pouco, mas voltou...
O amor verdadeiro
que permanece
como água essencial.

Pvt. Jack Bell: We. We together. One being. Flow together like water. Till I can't tell you from me. I drink you. Now. Now.

Essa invisivel barreira, porque existe ela?
Talvez não exista resposta.
Apenas o mundo.
Todas as coisas brilhantes.

Private Edward P. Train: Where is it that we were together? Who were you that I lived with? The brother. The friend. Darkness, light. Strife and love. Are they the workings of one mind? The features of the same face? Oh, my soul. Let me be in you now. Look out through my eyes. Look out at the things you made. All things shining.

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