domingo, agosto 19, 2007

Convocação da SUSPECT

Eu sei que não gostas particularmente destas coisas, mas devido ao teu talento criativo (já te disse que és uma excelente poeta), convido-te a participares no grupo iniciado por mim e por DeWilme. Não ficas obrigada a nada, mas fica sabendo que o grupo ficaria muito mais pobre sem ti.

Assim te convoco a ti, Suspect,

Ricardo Ruben.

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Carta aberta ao DeWilme

Lanço assim um repto aos meu caro DeWilme (e qualquer outro interessado):

POESIAS CRUZADAS

Escolherei 10 palavras e com elas a tua (vossa) missão será com elas construir um poema. Depois faz(çam) o mesmo, escolhe(am) 10 palavras para eu (ou outro) construir um poema.

NOTA: Na escolha, tentarei não escolher palavras óbvias (amor,alma,dor, etc.). Poderão ser acrescentadas palavras, de forma a formar um poema coerente, sem limite de extensão. O que interessa é estas palavras figurem no poema.

1- gelado
2- carrinho
3- olhos
4- coronel
5- viagem
6- conversa
7- mês
8- epidemia
9- aquecer
10- cães

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sábado, agosto 18, 2007

Sem Destino



Foi como uma bomba implantada no meu cérebro que o filme explodiu. Sabem que, depois de ter lido o livro, ver inadvertidamente todas as imagens que projectámos um dia na cabeça reproduzidas em imagens verdadeiras, com rostos, corpos, cores. Não se trata de uma comparação livro/filme, porque advogo que as duas coisas são dois objectos artísticos diferentes e como tal não devem ser comparados no sentido qualidade relativa.

O livro chegou-me às mãos no ano de 2002, ano em que o autor Imre Kertesz ganhou o Nobel da Literatura. Na altura, ouvi e pensei barbaridades do género - prémio condescendente porque é dado a um tema óbvio e já mais do que debatido. Engano meu, pois a II Guerra Mundial (como todas as guerras) são temas que envolvem tantas histórias e tantas vertentes e tantos países.

Li o livro (Sem Destino)e fiquei abismado. É um livro simples e no entanto de tão díficil compreensão. Contudo, ao lermos com atenção e ao chegar à última palavra algo se ilumina dentro de nós, uma luz distante, difusa e triste. Mas bela.

O livro é semi-autobiográfico e conta a história de Koves (ou o próprio Kertesz), um rapaz de 16 anos que vê o pai partir para um campo de concentração e que mais tarde vai ele próprio para um.



Escrtito sem nenhum sentimentalismo (um dos seus trunfos), parece chocante no que parece uma tentativa de amenizar o holocausto. Mas isso está longe de acontecer. Sem dramatizar, Kertesz escreve o dilema do rapaz entre manter-se vivo mas sem perder o amor próprio. A experiência bárbara não é minimizada, mas também não é demonizada.

A grande violência do livro é a descrição do quotidiano a que estão sujeitos os prisioneiros. Aí, nesse mesmo quotidiano terrível, Koves e os seus companheiros aprendem a descobrir uma espécie de felicidade, sendo no apoio mútuo e nesses pequenos momentos em que o sol se põe, na contemplação destes infimos nadas que ganham força para enfrentar um novo dia bárbaro.

A mensagem è simples, mas dura. Koves é judeu e como judeu ensinam-lhe que deve aceitar o que o destino lhe trouxer, pois o povo judeu está condenado a sofrer, o que Koves faz, de certa forma. Depois da passagem pelo campo de concentração, Koves aprende uma lição que lhe muda a vida - não existe destino, porque se houvesse não existiria liberdade e é passo a passo que se constrói a vida, convivendo com o mal, aceitando a sua possibilidade estoicamente, percebendo que o que é comum e normal neste mundo não é o Bem, mas a maldade. Contudo, como Koves diz no fim, aí reside a esperança e o valor humano - na felicidade que encontrou nos campos de concentração.

O filme, objecto magnífico, tem a felicidade de ser servido não só pelo argumento do próprio Kertesz, mas também pela excelente fotografia e banda sonora (que é do Morricone).



A ler e a ver.



Aconselho a leitura desta crítica:
http://www.ft.com/cms/s/a955ba50-cefa-11da-925d-0000779e2340.html/

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quinta-feira, agosto 16, 2007

“Decididamente, tudo o que é interessante se passa na sombra. Nada sabemos da verdadeira história dos homens.”
Céline

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domingo, agosto 12, 2007

Sylvia Plath




Ontem vi o filme "Sylvia".
Plath é uma das minhas poetas(destesto a palavra poetisa)favorita.
os apelos suicidas de uma mulher sem saida, cuja imagem foi vergõnhosamente mais tarde apropriada pelas feministas como estandarte negativo. Exemplo negativo da mulher não realizada por causa dos deveres da casa, dos filhos, do casamento...
Mau exemplo. O problema não são os filhos, a casa, o casamento. Somos nós, homens.
A julgar pela forma como o filme o retrata, Ted Hughes não era mais do que um filho-da-puta mulherengo, infinitamente inferior a sua mulher, quer na capacidade como ser humano, quer como poeta.
Mas embora o retrato possa ser inteiramente ficcional, o exemplo está lá.
Não sei o que nos atinge, a nós, homens, para nos fartarmos tão depressa de um estado, de um sabor.

Aflita e desesperada, Sylvia vê a sua vida reduzida à triade que encontramos no poema "3 mulheres" - mãe, esposa, secretária. Cortaram-lhe as asas para voos maiores, como a muitas mulheres, ao longo da história e a ainda hoje.
Sem querer usar Plath como um exemplo, limitando-a assim a essa figura icónica, mas antes contemplando-a como ser humano, como mulher sensivel e no final de contas tão simples, aqui vos deixo o último dos seus poemas, tão prenunciador do suícidio que iria cometer.

"Edge"

The woman is perfected.
Her dead
Body wears the smile of accomplishment,
The illusion of a Greek necessity
Flows in the scrolls of her toga,
Her bare
Feet seem to be saying:
We have come so far, it is over.
Each dead child coiled, a white serpent,
One at each little
Pitcher of milk, now empty.
She has folded
Them back into her body as petals
Of a rose close when the garden
Stiffens and odors bleed
From the sweet, deep throats of the night flower.
The moon has nothing to be sad about,
Staring from her hood of bone.
She is used to this sort of thing.
Her blacks crackle and drag.

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sábado, agosto 11, 2007

Saudades da Helena #2

We were apart; yet, day by day,
I bade my heart more constant be.
I bade it keep the world away,
And grow a home for only thee;
Nor fear'd but thy love likewise grew,
Like mine, each day, more tried, more true.
(...)
Matthew Arnold
"Isolation: To Marguerite"

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quarta-feira, agosto 08, 2007

A segunda voz

aqui confesso uma segunda voz.
fala-me quando menos espero e o que diz nada tem a ver comigo.
ainda assim:

"Queria ser rei de um rei
De um país de reis
Pretensão louca! Direis.
Mas rei em latim
É coisa
E coisa é o que serei."

Salvador Bicho

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Escrever

sim, é-me doloroso. vejo o tempo passar nos sonhos largados, amontoados a um canto. nunca nada acabei.começo fresco, cheio da vitalidade criadora. depois vêm as formigas e comem-me as pontas dos dedos. e dói-me saber-me pequeno, e de barriga tão grande e cheia. espero. observo os outros e concretizo o sonho - apenas na cabeça. por momentos. depois são estes destroços que me sobram, vidas que fiz um dia o favor de criar e que abandonei. merda. PORQUE RAIO NÃO CONSIGO ESCREVER?

e as tuas palavras são grandes, apesar dos sonhos enganadores
ricardo
e as tuas palavras são grandes



(Karen Watts - "My Despair")

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domingo, agosto 05, 2007


(foto de Piotr Kowalik)

“A alma é a vaidade e o prazer do corpo enquanto saudável, mas também a vontade de abandonar o corpo quando ele está doente ou as coisas correm mal.”

Céline

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sábado, agosto 04, 2007

Génio Louco

I should have been a pair of ragged claws, scutlling across the floors of silent seas

resolvi fazer este teste e o resultado foi este (nice!):


Faça você também Que gênio-louco é você? Uma criação de http://www.abyssinia.blogspot.com">O Mundo Insano da Abyssinia

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sexta-feira, agosto 25, 2006

A Sopa ;)

ANTÓNIO LOBO ANTUNES
A Sopa
Carta da Guerra em Angola Enviada por Lobo Antunes ao Irmão Mais Novo

Remetente: António Lobo Antunes Alferes-médico SPM 2676

Ex.mo Sr. Manuel Lobo Antunes
Travessa dos Arneiros, 14, Lisboa 4
Metrópole
Redação: A Sopa
27-04-1971, em Ninda

Querido Manuel,
Eu estou em Angola. Eu gosto muito de Angola. Eu vim para Angola num barco muito grande, com muitos soldados. Eu vou voltar de avião. Eu vou aí em Setembro. Eu tenho patilhas. Eu tenho cabelo rapado. Eu tenho muitas saudades de todos, tais como da Margarida. Angola é em África. África tem leões, macacos, gazelas, elefantes, pacaças, palancas e muitos pretos. Os pretos têm um cabelo com muitos caracóis e dentes brancos. Os pretos não falam português, falam preto. A gente não percebe os pretos a falar preto. Os pretos às vezes falam português. Os portugueses nunca falam preto. Em Angola há muito calor todo o dia. Eu tenho uma espingarda mas ainda não matei ninguém. Eu visto farda. Farda é um fato igual para todos. Eu como coisas que não gosto de comer mas como porque há muita gente com fome e não devemos desperdiçar. A colher fica em pé na sopa de tal maneira a sopa é grossa. A sopa serve também para pegar tijolos uns aos outros. Há casas que foram feitas graças à sopa. A sopa tem muitas coisas dentro, que a gente tem de mastigar, e às vezes corta-se a sopa com a faca. A sopa é mais dura do que um bife muito duro. As colheres de sopa caem no estômago da gente com um barulho parecido com pedras a cair num poço. Eu não gosto de sopa. Eu nunca mais como sopa. Já me nasceram dentes na barriga para moer a sopa, e os meus intestinos, a fazerem a digestão da sopa, parecem mesmo um motor de traineira. Quando me sento à mesa e vem a sopa tenho medo porque a sopa parece cimento. Eu estou forrado de sopa por dentro.
Quando me assoo sai sopa do nariz. Quando espirro espirro gotinhas de sopa. Outro dia tiraram-me sangue e um talo de couve saiu-me da veia e entupiu a agulha. De vez em quando, quando há feridos, fazem-se transfusões de sopa, e a gente vê o grão e o feijão da sopa a saírem de um para entrarem no outro. Quando há feridas é preciso desinfectar a sopa que sai da ferida. Se se espreme uma borbulha aparecem logo bagos de arroz de sopa. A sopa é o nosso pior inimigo, a espiar a gente do fundo das panelas duas vezes por dia, ao almoço e ao jantar, a sopa ataca-nos. A sopa já fez muitas baixas. Às vezes a sopa traz brindes como os bolos-reis tais como baratas, insectos, borboletas, que morreram envenenados pela sopa. De maneira que a gente vai começar a usar a sopa como remédio para os ratos.
Os americanos já nos pediram para a gente mandar sopa para o Vietname, porque os comunistas morrem todos se a comerem. Eu gostava muito de dar sopa à sopa. Eu vou acabar. São horas de comer a minha sopa.

António Lobo Antunes Vítima nº 07890263 da sopa Morto no campo de batalha do refeitório com um ataque agudo de sopa

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sexta-feira, agosto 18, 2006

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good

W.H Auden

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terça-feira, agosto 15, 2006

Harold Pinter


Harold Pinter
(Nobel de 2005)


Este dramaturgo naceu em 10 de Outubro de 1930, em East London.
Da sua obra teatral, destacam-se as peças The Caretaker, The Hothouse, The Birthday Party, entre outras.
Famoso pela sua opinião politica, há que relembrar que esta (a politica) encontra-se indelevelmente ligada à sua produção artistica.
Bem, blá-blás à parte, dipensam-se apresentações.

"Does reality essentially remain outside language, separate, obdurate, alien, not susceptible to description? Is an accurate and vital correspondence between what is and our perception of it impossible? Or is is that we are obliged to use language only in order to obscure and distort reality - to distort what happens-because we fear it? We are encouraged to be cowards. We can't face the dead. But we must face the dead because they die in our name. We must pay attention to what is being done in our name."
Oh Superman 1990


No seu campo lexical, as palavras "freedom" (liberdade) e "democracy"(democracia) estão banidas, pois são consideradas como palavras-mentira que não descrevem o objecto ao qual se referem, são apenas artificios linguisticos para a nossa mente aceitar um estado que não sabemos realmente o que é, e logo não o podemos exprimir.

Assim, não é de admirar a sua total desconfiança em relação à linguagem - Pinter de facto encara, como já Beckett ou Eliot o fizeram, a linguagem como um "falhanço".

Ainda assim, no campo politico, Pinter aplica palavras de um poder destrutivo e irónico tremendo quando se refere ao dirigente politico do seu pais, Tony Blair - "deluded idiot".

Recentemente, Pinter dedicou-se à poesia. Contudo, a sua produção poética está longe da qualidade das suas peças. Poesia nada inovadora, cheia de clichés linguisticos (que tão bem resultam nas suas peças e não nos seus poemas), Pinter poetiza os seus ideias politicos, num ataque feroz à politica americana. A voz poética de Pinter é, antes de mais, nascida da tentativa de exprimir a fúria na poesia, numa forma que só os poetas menores sabem...

"God Bless America"
Here they go again,
The Yanks in their armoured parade
Chanting their ballads of joy
As they gallop across the big world
Praising America's God.
The gutters are clogged with the dead
The ones who couldn't join in
The others refusing to sing
The ones who are losing their voice
The ones who've forgotten the tune.
The riders have whips which cut.
Your head rolls onto the sand
Your head is a pool in the dirt
Your head is a stain in the dust
Your eyes have gone out and your nose
Sniffs only the pong of the dead
And all the dead air is alive
With the smell of America's God.

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